Pronunciamento na Audiência
Pública da Câmara Municipal de Vassouras
10/06/2013
Bom
dia a todos e a todas: parlamentares, profissionais de educação de Vassouras e
integrantes da sociedade civil.
Sendo professora, incluirei em
meu pronunciamento, trechos da história que vão exemplificar o que estamos
vivendo aqui em Vassouras. Dirigente sindical e atuante dos movimentos que
lutam pela transformação dessa sociedade capitalista, perversa, individualista
onde o deus mercado determina a lógica da política que caminha, também em nosso
país, aceleradamente para a mercantilização da saúde, educação- da vida. Essa
introdução já localiza a concepção de sociedade que defendemos: um mundo mais
justo com o fim das desigualdades sociais, ainda brutais no Brasil, o
quarto país mais desigual da América Latina em distribuição de renda, ficando atrás somente de
Guatemala, Honduras e Colômbia.
O
conceito de desigualdade social é amplo que compreende diversos tipos de
desigualdades: desigualdade de oportunidade, de escolaridade, de renda, de
gênero, raça/etnia, dentre outras.
Destacamos as lutas de diversos
militantes que combateram a ditadura militar, dos que participaram do processo
de redemocratização deste país, pelo retorno das liberdades democráticas,
incluindo a luta pelo livre direito de expressão, o livre direito de
organização partidária, sindical e de outras formas de organização, empenhadas
no combate a todas as forças de discriminação, violências e injustiças.
Período esse cantado por muitos
artistas como Aldir Blanc e João Bosco em O bêbado e o equilibrista, gravado por Elis Regina, em 1979 que
representava o pedido da população pela anistia ampla, geral e irrestrita, um
movimento consolidado no final da década de 70. A letra fala sobre o choro de
Marias e Clarisses, em alusão às esposas do operário Manuel Fiel Filho e do
jornalista Vladimir Herzog, assassinados sob tortura pelo exército.
Trecho: Que
sonha com a volta / Do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu / Num rabo
de foguete / Chora! A nossa Pátria Mãe gentil / Choram Marias e Clarisses / No solo do Brasil…
Com
certeza Aldir Blanc e João Bosco se estivessem em Vassouras, incluiriam em sua
música Manoel Congo e Marianna Crioula-
Uma crioula de
estimação de Dona Francisca Xavier que deixou gravado em sua história a frase:
morrer sim, entregar não!!!". A revolta de Vassouras serviu como exemplo para que os senhores donos
de escravos se alertassem contra as crescentes insurreições.
Resgatamos
hoje um pedaço da história do líder do movimento no Quilombo de Vassouras, o
Manoel Congo, de “propriedade” do fazendeiro Manoel Vieira dos Anjos, aqui em
Vassouras, fazendeiro que tinha uma fama de cruel no trato com as pessoas
escravizadas. A revolta que dá origem ao quilombo foi consequência de uma série
de assassinatos que ele, o fazendeiro, cometeu. Segundo denunciou o trabalhador
rural negro Antônio ao juiz de Vassouras, José Pinheiro de Souza Werneck, foram
mortas quatro pessoas barbaramente a pauladas pelo senhor de escravo. Mas quem foi punido foram os que lutaram
contra as injustiças cometidas. Manoel Congo foi condenado à morte. Os
demais escravos que participaram da revolta foram condenados a três anos de
gonzo (dobradiça de ferro que envolvia o pescoço) e 650 chibatadas que eram
aplicadas no máximo 50 por dia, para evitar que o escravo morresse antes de
pagar a sentença, sendo eles: Antonio Congo, João Cambinda, Antonio Ângelo e
Maria Congo. Os corpos estavam ocultados próximo da propriedade rural.
Mesmo com a descoberta dos cadáveres das vítimas pelas autoridades, como era comum na época, o promotor público, Lucidoro Francisco Xavier ofereceu denúncia contra o fazendeiro, mas não conseguiu condená-lo. Em seu julgamento em Júri Popular, no dia 23 de janeiro de 1838, Manoel Vieira foi inocentado. Ele ainda alegou em sua defesa que as pessoas tinham morrido de causas naturais e que não foram sepultados em um cemitério dos escravos, por não serem batizados.
Como ninguém teve coragem de testemunha contra o fazendeiro e pelo Código Penal da época, (os escravos eram impedidos de fazê-lo), os 23 jurados, o inocentaram por 20 votos. Alguns ainda argumentavam em particular, que só o prejuízo que teve com a morte de cinco pessoas trabalhadoras, já era castigo suficiente.
Mesmo com a descoberta dos cadáveres das vítimas pelas autoridades, como era comum na época, o promotor público, Lucidoro Francisco Xavier ofereceu denúncia contra o fazendeiro, mas não conseguiu condená-lo. Em seu julgamento em Júri Popular, no dia 23 de janeiro de 1838, Manoel Vieira foi inocentado. Ele ainda alegou em sua defesa que as pessoas tinham morrido de causas naturais e que não foram sepultados em um cemitério dos escravos, por não serem batizados.
Como ninguém teve coragem de testemunha contra o fazendeiro e pelo Código Penal da época, (os escravos eram impedidos de fazê-lo), os 23 jurados, o inocentaram por 20 votos. Alguns ainda argumentavam em particular, que só o prejuízo que teve com a morte de cinco pessoas trabalhadoras, já era castigo suficiente.
Como
o tempo concedido é restrito, deixo a continuidade dessa história para nossos
profissionais da educação aqui de Vassouras.
Voltemos ao período da ditadura
militar. Para quem lutava pela democracia, o silêncio também era uma forma de morte. Para os ditadores, a morte
era uma forma de silêncio e a música Cálice
de Chico Buarque em 1973, expressa essa concepção de luta pelo direito a livre expressão.
Travamos uma luta incansável
contra todas as formas de censura, marcadamente representada pelos Atos
institucionais, criados para aumentar a repressão do Estado sobre a população
ou qualquer manifestação que fosse contrária ao governo imposto no país.
A classe trabalhadora também
avançou nas conquistas dos direitos no mundo do trabalho, lutando até os dias
de hoje contra as diversas formas de repressão do Estado.
A nossa Constituição Federal de
88 em seu Art.9º e Art. 37, VI, entende por direito fundamental os criados para
garantir igualdade de oportunidades para todos/as, com liberdade e dignidade, à
luz dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana e o direito a livre organização sindical e o direito à greve estão
garantidos na CF.
Quero destacar a Convenção 151 da OIT (Organização
Internacional do Trabalho da ONU - criada em 1919 com objetivo de um mundo
solidário, justo e socialmente igual), que estabelece o princípio da negociação
coletiva entre trabalhadores públicos e
os governos das três esferas - municipal, estadual e federal, convenção ratificada em 2009, por consenso pela
Câmara dos Deputados.
Para o movimento sindical, esta
é uma das grandes vitórias sociais, pois fortaleceu a livre organização sindical,
o direito à liberdade de expressão, de representar e ser representado, de
participar, organizar atos que busquem a ampliação dos direitos e melhorias nas
condições laborais, mas acima de tudo, a convenção
151 determinou que os gestores públicos passem a respeitar as entidades como
órgãos que representam a classe trabalhadora
A
Convenção 151 também estabelece os seguintes princípios:
1. Proteção contra os atos de
discriminação que acarretem violação da liberdade sindical em matéria de
trabalho.
2. Independência das organizações de trabalhadores da função pública face às autoridades públicas.
3. Proteção contra atos de ingerência das autoridades públicas na formação, funcionamento e administração das organizações de trabalhadores da função pública.
4. Concessão de liberação aos representantes das organizações de trabalhadores da função pública reconhecidas, permitindo cumprir suas funções seja durante as suas horas de trabalho ou fora delas.
5. Instauração de processos que permitam a negociação das condições de trabalho entre as autoridades públicas interessadas e as organizações de trabalhadores.
6. Garantias dos direitos civis e políticos essenciais ao exercício normal da liberdade sindical.
2. Independência das organizações de trabalhadores da função pública face às autoridades públicas.
3. Proteção contra atos de ingerência das autoridades públicas na formação, funcionamento e administração das organizações de trabalhadores da função pública.
4. Concessão de liberação aos representantes das organizações de trabalhadores da função pública reconhecidas, permitindo cumprir suas funções seja durante as suas horas de trabalho ou fora delas.
5. Instauração de processos que permitam a negociação das condições de trabalho entre as autoridades públicas interessadas e as organizações de trabalhadores.
6. Garantias dos direitos civis e políticos essenciais ao exercício normal da liberdade sindical.
Lastimavelmente tudo indica que
a cultura do desrespeito aos direitos fundamentais contidos tanto na CF, como
na Convenção 151 da OIT é ignorada pelo
Prefeito desta cidade quando resolveu requere a ilegalidade da greve
desrespeitando também a própria legislação municipal, com uma Ação Civil Pública
proposta por ele alegando que a greve da educação acarreta prejuízo, sobretudo
para os alunos que necessitam da reposição das aulas. Afirma que encaminhou no
dia 22.05.2013 projeto de lei para reajuste salarial, mas que o réu recusa-se a
encerrar a greve.
O
prefeito de Vassouras MENTIU!
O
que o Prefeito não disse na Ação é que o referido PL foi REJEITADO por todos(as) os(as)
vereadores(as) da casa, portanto a categoria nada tem para apreciar em sua
Campanha salarial de 2013.
Sustenta que a educação é serviço
essencial, mas não disse que sua concepção de essencial para a educação tem
representado:
·
cinco longos anos sem qualquer reajuste para os
profissionais da educação;
·
professores (as) concursados de 20 horas que
trabalham 22:30 horas sem receber as horas que extrapolam a carga horária
prevista em edital;
·
não disse que não cumpre a Lei do Piso Salarial
Nacional- Lei 11.738 de 16/07/2008;
·
não disse que o Plano de Cargos e Salários- Lei
Complementar nº 22/2002- Estatuto do Magistério está congelado, portanto sonega
o percentual salarial correspondente ao
enquadramento;
·
não disse que os profissionais da educação tem
que ministrar medicamentos aos alunos, responsabilidade essa que não cabe aos
trabalhadores em educação;
·
não disse que não reconhece e nem pretende
reconhecer os funcionários administrativos como trabalhadores não docentes,
deixando de seguir a orientação do parecer CNE/CEB Nº 9/2010, homologado pelo
MEC em 30/07/2010;
·
não admite que as escolas estão em situação
precária de funcionamento e que falta de material básico tanto pedagógico
quanto de limpeza e higiene.
E
a história repete o passado!
Quem não cumpre as Leis é o
executivo dessa cidade, mas ele requer a penalidade para os profissionais da
educação. Pasmem os senhores e senhoras, com fixação de “pena pecuniária de R$ 2.000,00(dois mil reais) por dia, para
professor grevista que deixar de cumprir a liminar a ser deferida, bem como a
pena pecuniária de R$ 10.000,00 (dez mil
reais) por dia de descumprimento por parte do Sindicato réu”! E ainda
atribui-se à causa o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Tal atitude,
seguindo a lógica de punir os que lutam por direitos, nos remete à pena
aplicada aos que lutaram junto a Manoel Congo e Marianna Crioula.
Portanto o que o prefeito desta
cidade pretende é penalizar o conjunto
da categoria filiado ao SEPE duplamente, pois o nosso sindicato não utiliza
imposto sindical, pois entende que a filiação é um ato voluntário baseado na
credibilidade de sua atuação em defesa dos interesses da categoria e da luta
por uma educação pública laica, democrática e de qualidade socialmente
referenciada.
Quem
está mantendo a decisão da greve é o prefeito desta cidade que descumpre todos
os pontos acima mencionados, por dois mandatos.
Tentou desarticular o movimento
determinando que as diretoras convocassem por telefone uma parcela dos
profissionais da educação em greve. Praticou o que MTE (Ministério do Trabalho
e Emprego) classifica como atos antissindicais,
quando não permitiu que a direção do SEPE participasse dessa “reunião” nem
mesmo uma colega eleita em assembleia enquanto integrante do Comando de Greve,
mantendo-a numa sala sozinha, afastada dos(as) auxiliares de creches que foram
conduzidas para outra sala.
Ele não acreditou que os
informes haviam sido feito na assembleia e repetiu o que já havia dito aos
representantes do SEPE. As dúvidas surgidas estavam relacionadas à forma como
ele mesmo escreveu o PL rejeitado por esta casa.
Como não conhece os
profissionais de educação que trabalham na rede municipal de Vassouras, pensava
o prefeito que iria convencer a categoria com suas explicações evasivas. Teve
que ouvir as diversas críticas feitas pelos profissionais da educação, já
mencionadas acima, dentre as quais destacamos:
·
a dívida que cresce a cada ano, que pode nos
levar a caracterizar como exploração do
trabalho realizado e não pago;
·
merendeiras (os) que realizam tarefas nas
escolas além das suas reais funções ( uma vez que as escolas apresentam
carência de funcionários);
·
não recebimento de contracheque;
·
descontos indevidos; dentre outras denúncias.
Quem lá esteve ouviu a
categoria reafirmando todas as reivindicações contidas na pauta construída em
assembleia. Também ouviu o prefeito repetindo as mesmas desculpas e
sinalizações do que diz que vai implementar, mas usando o gerúndio- sem data
marcada, muitos estudos e nenhuma das propostas emergenciais apresentadas pela
categoria foi aceita.
Falou da greve que estava se
prolongando muito e que estava preocupado com os alunos, mas não disse na Ação
Civil que na audiência do dia 28 de maio, direção do SEPE já havia afirmado que
quando a greve terminasse seria construído o calendário de reposição, com
participação dos responsáveis pois é compromisso de todos os profissionais da
educação garantir a reposição dos conteúdos mínimos elaborados no projeto
político-pedagógico.
Quem não cedeu foi o prefeito
que manteve a mesma proposta anterior que significa um reajuste vergonhoso que
varia de R$ 6,20 a R$169,20 por mês,
destacando que a maior parcela da categoria receberá 82,17.
A
luta dos profissionais de educação da rede municipal de Vassouras deve orgulhar toda a cidade. Tem
oportunizado uma verdadeira aula pública
onde o direito a liberdade de expressão, organização sindical tem ocupado o
centro do debate, assim como o conceito de valorização profissional do conjunto
dos(as) trabalhadores(as) em educação, que representa a concepção de educação
que liberta, a concepção de educação que o mestre Paulo Freire e tantos outros
nos ensinaram.
Parafraseando
Paulo Freire "Não é possível refazer este país, democratizá-lo,
humanizá-lo,torná-lo sério, ( com
adolescentes brincando de matar gente,) com
chefe do executivo descumprindo a CF, a convenção 151 da OIT, a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, ofendendo a vida, destruindo o sonho,
inviabilizando o amor” e ainda condenando os profissionais da educação. “Se a
educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade
muda.”
Em
nome da direção do SEPE quero afirmar que nos orgulhamos de cada um(a)de vocês
que herdaram a disposição de lutar pela
liberdade em seu sentido pleno como Manuel Congo e Marianna Crioula, e
escreveram na história de Vassouras mais um capítulo da luta por uma sociedade
mais justa, humana e contra todas as formas de injustiça.
Aos
senhores vereadores(as) desta casa reafirmamos: queremos sair deste impasse!
E a saída
está nas mãos de cada um de vocês. Não abriremos mão de nossa história coletiva
e da nossa dignidade, pois somos educadores(as) e não vamos negar, aos
nossos(as) alunos(as), a história de luta pelos direitos fundamentais da pessoa
humana. Tenham a certeza que esta greve já é vitoriosa e todos(as) nós
aprendemos muito.
Na última
tentativa de amedrontar a categoria, na convocação da sexta feira última, a
reunião foi aberta pela Secretária de Educação com a leitura da decisão da juíza. O
subprocurador do município perguntou se alguém tinha alguma dúvida e a única
resposta foi um NÃO, pois a resposta ao absurdo de tal ação intimidatória já
estava sendo divulgada para a população. E sem medo, os(as) profissionais da
educação saíram de forma coletiva e honrosa.
Esta história nós contaremos em
cada escola, em cada comemoração da cidade, em contos de “causos”, fazendo a
revisão dos livros didáticos que omitem a real história daquele e daquelas que
lutaram e continuam lutando por um mundo melhor!
Romper
os muros da noite; Criar sem licença; Um mundo de liberdade!
(Pedro
Tierra)!
Gesa
Linhares Corrêa
Coordenadora
Geral do SEPE/RJ
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